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Um QG em casa para gestão da crise

Tragédias Socioclimáticas Voltam Quando As Esquecemos
Você está preparado para ser voluntário ou vítima na próxima enchente?
16 de março de 2017

É preocupante a dificuldade que temos para abandonar a nossa casa, mesmo sob a real perspectiva de acabar sendo vítima sob seu próprio teto. Incrível também a coragem e o otimismo que nos acode nessa hora.

 
[...] Voltei para as canaletas abaixo do segundo talude, que captavam as águas do jardim construído sobre o barranco em corte de 45º e comecei a limpá-los. Ali tinha acumulado bastante barro e folhas que diminuíram o leito da canaleta e impediam que as águas da chuva escoassem mais rapidamente.

No meio da tarde o meu amigo Robson Carlos Santos, engenheiro civil, atendeu o meu chamado e veio dar uma olhada na situação. Eu buscava me tranquilizar, tranquilizar a Biga e a minha filha Karol e algum apoio técnico que me levasse a decidir sobre o risco que corríamos, diante de um possível deslizamento. Obviamente que a simples análise das plantas de construção e o olhar superficial sobre aquele morro encharcado, não permitiria uma análise criteriosa. A recomendação foi que por medida de prevenção deveríamos ir para um lugar mais seguro.

Passei todo aquele dia de domingo, 24 de novembro, em pleno horário de verão, envolvido com o serviço de desobstrução dos bueiros e canaletas e refletindo sobre o que fazer. Totalmente encharcado e já sentindo um pouco de frio, após avaliar que eu tinha feito um bom trabalho, entrei, tomei um banho e desci para discutir a situação com a Biga. Nós tínhamos um outro probleminha que nos impedia de simplesmente sair dali e nos recolhermos na casa de algum dos meus irmãos, de um dos nossos muitos amigos ou mesmo num hotel. O Tobby, o Billy, o Blackie e a Georgia eram nossos amigos e companheiros de longa jornada. Não podíamos abandoná-los e seria complicado encontrar um lugar para acomodá-los. Decidimos deixar uma mala arrumada com documentos e algumas roupas, material de higiene pessoal, as guias e a ração das “crianças” bem a mão e ficar em casa.


 
É preocupante a dificuldade que temos para abandonar a nossa casa, mesmo sob a real perspectiva de acabar sendo vítima sob seu próprio teto. Incrível também a coragem e o otimismo que nos acode nessa hora. Tudo iria correr bem.

Montei uma pequena estrutura na mesa da sala de jantar, com o meu notebook, um PC, rádio, TV e com os telefones fixo e celular. Uma porta grande de vidro nos fundos da casa me dava uma boa visão daquela área em 45° que fazia a encosta do morro para o talude superior e que tinha deslizado do seu meio para a lateral direita, abrindo uma fresta de uns 10 centímetros ao encontro do muro. Dali eu teria como acompanhar qualquer movimentação de terra naquele local. Funcionaria como um QG para administrar a nossa situação e a situação da cidade por meio da Rede Social Arca de Noé.

p.s.: Trecho do livro "Três Anos a Bordo da Rede Social Arca de Noé (título provisório). Capítulo II - A tragédia.

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