Raciel Gonçalves Junior



Sair, encontrar pessoas, ser voluntário e ajudar a tecer redes sociais, para juntos participarmos da construção de catedrais e[u]m mundo mais socializado, justo e fraterno.

A máxima de Torahiko Terada como razão

N aquele fatídico 22 de novembro de 2008, por volta das 23 horas, alertado sobre os primeiros desalojamentos de famílias, sob chuvas e relâmpagos, fui me juntar aos primeiros voluntários que se organizaram no centro da cidade de Itajaí para ajudar as vítimas das enchentes. A viagem só estava começando...

Eu já havia desistido de continuar com o trabalho voluntário de ajudar a construir a cultura de percepção de risco e prevenção de desastres. Mas a máxima do Torahiko Terada: "Desastres naturais voltam quando os esquecemos", não deixa de martelar no meu cérebro desde que a conheci. Sobre ela, prefiro a tradução literal:"O desastre natural virá novamente quando a tragédia que você sofreu estiver prestes a cair no esquecimento".

Ao me decidir escrever sobre os primeiros três anos a bordo da Rede Social Arca de Noé, passado oito anos desde aquela decisão de me apresentar como voluntário para ajudar as vítimas das enchentes, faço na expectativa de poder deixar algo de valor para todos que se dedicam ao voluntariado e ao desafio da resposta e reconstrução durante e no pós desastre ambiental.

Outro dia li no jornal uma entrevista com o escritor gaúcho Michel Laub, na qual ele afirma que: "Tudo é autobiográfico num livro, porque o escritor se baseia na própria história, nem que seja para inventar". Essa afirmação do Laub me levou a refletir sobre o meu passado e lembrar de que num período de 38 anos, dos dez aos quarenta e oito anos de idade, cinco fatos relacionados ao Rio Itajaí-Açu e as Enchentes em Santa Catarina, por motivos aleatórios, me marcaram bastante.

A minha ideia é escrever um livro reportagem, mas não sou escritor tampouco jornalista, então, nos próximos dois anos, estarei tateando entre o desafio de aprender a escrever um livro e o de vencer a preguiça de pensar, pesquisar e construir um conteúdo de qualidade para deixar como um legado dessa experiência que eu vivi na condição de criador e netweaver (tecelão) da Rede Social Arca de Noé.

Nos próximos vinte e quatro meses, contados a partir de hoje - 28 de novembro de 2016, gostaria muito de contar com a sua colaboração. Prometo ler e avaliar tudo o que eu receber, na expectativa de que a sua história e/ou experiência seja ímpar e relevante para o tema central que estarei explorando no livro, e que estará diretamente relacionado a nossa indispensável necessidade de nos prevenirmos melhor para atenuar os efeitos de um desastre.


"Enquanto os fenômenos estão além do controle do Homem, o desastre, no entanto, pode ser atenuado em qualquer medida, dependendo da precaução."

(Torahiko Terada)

1974. Tubarão (SC). O desastre mais trágico.

1983. Enchente no Vale do Itajaí. 90 municípios inundados.

C om uma das primaveras mais chuvosas das últimas décadas, mais de três meses seguidos de chuva intensa, o ano de 2008 registrou o pior desastre da história de Santa Catarina. Em apenas cinco dias de chuva, no município de Blumenau, caiu água suficiente para abastecer a cidade de São Paulo durante três meses (300 bilhões de litros de água).

135 mortos. 80 mil pessoas desalojadas e desabrigadas. 63 municípios em Situação de Emergência. 14 em Estado de Calamidade Pública.

Se a ideia é criar cidades p/ pessoas, devemos criar espaços onde podemos nos perguntar: ¿ mi gusta estar donde estoy? --Maturana