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NovaPaideia

PAIDEIA* segundo Werner Jaeger**, era o "processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana" na Grécia antiga.

 

Histórico

 

Inicialmente, a palavra paidéia (de paidos - criança) significava simplesmente "criação de meninos". Mas, como veremos, este significado inicial da palavra está muito longe do elevado sentido que mais tarde adquiriu.

 

O termo também significa a própria cultura construída a partir da educação. Era o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Uma vez que o governo próprio era muito valorizado pelos gregos, a Paidéia combinava ethos (hábitos) que o fizessem ser digno e bom tanto como governado quanto como governante. O objetivo não era ensinar ofícios, mas sim treinar a liberdade e nobreza. Paidéia também pode ser encarada como o legado deixado de uma geração para outra na sociedade.

:::

Com os Núcleos Comunitários de Defesa Civil - NUDECs iniciamos a construção de um novo ideal de vida comunitária. As ameaças e as consequências de DESASTRES exigem novos hábitos (ethos) - uma NOVA PAIDEIA.

O texto que abre esta página, de autoria de Catarina Gewehr, Psicóloga e Professora do Departamento de Psicologia da Fundação Universitária de Blumenau - FURB, foi publicado originalmente no Blog*** MAD Blumenau : Movimento dos Atingidos pelo Desastre, e no meu entendimento retrata com muita propriedade o desafio de se (re)organizar a vida comunitária pós desastres.

 

A NovaPaideia precisa ser (re)construída e (re)organizada JÁ!

 

:::

 

Bom dia!

 

Ontem, durante o programa Espaço Comunitário, ouvi a manifestação do Secretário Municipal de Assistência Social de Blumenau, acerca do julgamento apresentado pelo Desembargador Domingos Paludo em relação à ocupação de área no Ribeirão Fresco. Em que pesem as distintas opiniões dos ouvintes, creio que uma figura que se torna pública-estatal, no contexto de uma democracia deveria – no mínimo – demonstrar um pouco mais de elegância no que diz respeito ao tratamento institucional de seus correlatos democráticos, no caso o senhor Desembargador. Imagino que o Secretário ao, reiteradas vezes, referir-se ao Desembargador como alguém “desinformado” está, de fato, dizendo que o Poder Judiciário e suas Cortes somente estão “informadas” quando legislam em torno dos interesses que o Secretário alcança considerar como “legítimos”.


Além de o tempo todo desconsiderar como plausível a posição do Desembargador Domingos Paludo, o Secretário de Assistência Social demonstrou um senso grave de generalização da realidade. Ouvindo e analisando as respostas que o mesmo pronunciava as perguntas feitas pelo apresentador do programa, estava inegavelmente presente aquela perspectiva pela qual – infelizmente – a situação do Desastre de novembro vem sendo trata pelo Poder Publico Municipal – em específico pela Secretaria de Assistência Social – no tocante à resolução dos graves problemas que a cidade vem enfrentado.


Quando o Secretário menciona, por exemplo, a questão do terremoto que vem assombrando a Itália na última semana e a montagem de barracas para abrigamento provisório… Talvez fosse preciso esclarecer ao Secretário que a montagem de barracas em tal situação é norma de segurança. Não é correto, tecnicamente, que o abrigamento provisório em tal situação seja feita de outro modo que não este de redução máxima do risco de desabamento/soterramento.


Creio ser esclarecedor indicar que, muito provavelmente, os equívocos na realização de assistência à situação desdobrada da crise que experimentamos na Cidade desde novembro último, está muito mais ligada a uma questão de incompetência técnica do que, propriamente, a uma situação de má vontade dos entes públicos. Entretanto – e a sabedoria popular muito bem reconhece… – de boa vontade o inferno está cheio!


Talvez algumas perguntas auxiliem a esclarecer a tese da “incompetência técnica”:

 

1. As moradias provisórias atendem de modo efetivo as regras de segurança previstas, por exemplo, pelo Corpo de Bombeiros? (A resposta desta questão é muito interessante quando temos diante dos olhos o texto regulador-normativo do Corpo de Bombeiros quanto à provisão de segurança em ambientes nos quais existe um grande fluxo de pessoas);


2. O processo social-comunitário levado a termo pela SEMASCRI nas moradias provisórias é de fato o mais recomendável em situações de crise psicossocial, econômica e política, como a que vivemos desde novembro de 2009? (Tecnicamente as situações de crise que se sucedem aos desastres naturais requerem ser tratadas como situações de exceção no contexto da vida cotidiana. Os sujeitos a ela implicados não estão reconstruindo-se no que diz respeito ao aspecto material. Estes indivíduos estão se reconstruindo como seres humanos, em sua integral condição de existir. Tal fato implica que alocar estes indivíduos por um tempo demasiado longo em instalações coletivas é potencializar as crises sócio-comunitárias latentes em função do Desastre. Tal situação agrava-se na medida em que estes indivíduos vêem sua autonomia diminuída por conta de, por exemplo, ter que viver sob regras ditadas desde outrem. Mais prudente seria que as comunidades, de maneira autônoma, produzissem as regras que regulam e possibilitam a convivência comunitária mediadora de conflitos e, por decorrência, saudável. Considerando a “provisoriedade” relativamente “permanente” das moradias – dado que até o momento ninguém no Município tem conhecimento de um plano efetivo de ações para construção das moradias – não seria prudente a busca de soluções técnicas mais competentes e habilitadoras da dignidade das pessoas abrigadas?);


3. A capacidade de gestão política das crises desdobradas de situações de desastres naturais não implicaria, por exemplo, em mover-se em calma humildade, mover-se sabendo reconhecer que a população é capaz de construir possibilidades de sobrevivência e solução de conflitos de maneira cooperativa com os poderes democraticamente instituídos? (A humilde capacidade em aceitar auxílios técnicos externos à SEMASCRI, auxílios técnicos vindos da Universidade, das entidades profissionais, dos cidadãos em geral, poderia ser um tipo inovador de resolutividade técnica; um tipo criativo de produção de resolução de problemas. Não fazê-lo, não assumir tal posição não constitui um prejuízo humano e financeiro muito maior do que aquele causado pelo Desastre de novembro?);


4. A solução individual que a SEMASCRI vem apresentando às famílias ocupantes do Ribeirão Fresco não seria um limite técnico da equipe que na Secretaria está diretamente lidando com a situação? (Problemas que atingem coletivamente as população não cabem ser resolvidos de maneira individual, caso-a-caso. Tais problemas requerem Políticas Públicas que jamais poderão se realizar como tal se permanecerem encerradas pela perspectiva do “um-a-um”. A Política Publica, para ser igualitária e efetiva, requer que os reguladores públicos do poder democrático – povo e autoridades constituídas dialoguem – e não que um ente se sobreponha pela força provocando ai o aniquilamento do outro. O aceitável tecnicamente nesta situação é a criação de uma espécie de “Comitê da Crise”, um coletivo que envolva representantes do Poder Público, do Povo e das Organizações de Apoio. Todos estes atores políticos que, à semelhança dos diversos Conselhos instituídos no Município, teriam como principal tarefa a constituição de soluções criativas e inovadoras na gestão e solução dos problemas gerados pela situação de desastre.);


Creio que a delicadeza do momento em que vivemos por conta da situação provocada pelo desastre é, de fato, uma possibilidade riquíssima para a revisão dos nossos modos de ser e fazer a vida.


Não se trata “apenas de construir casas…”, se trata, sobretudo, de resguardar o direito a viver com dignidade irrestrita.


Por isso insistimos que a SEMASCRI – como um ator fundamental deste processo – necessita de mais substância técnica, teórica e política para auxiliar todas as gentes de Blumenau a crescer, a se tornar um ser do qual possa se dizer de fato HUMANO.


Atenciosamente,

Catarina Gewehr
Psicóloga e Profa. do Departamento de Psicologia/FURB


Bibliografia:

*Wikipédia. Disponível em 20 de fevereiro de 2011 : http://pt.wikipedia.org/wiki/Paideia

**Werner Wilhelm Jaeger (Lobberich, 30 de julho de 1888 — Cambridge, Massachusetts, 19 de outubro de 1961) foi um filólogo alemão. Sua principal obra, Paidéia, foi editada na Alemanha, pela primeira vez, em 1936. No Brasil, sua primeira tradução e publicação data de 1966. Fonte: Wikipédia. Disponível em 20 de fevereiro de 2011 : http://pt.wikipedia.org/wiki/Werner_Jaeger

***MAD Blumenau. Disponível em 20 de fevereiro de 2011 : http://madblumenau.wordpress.com/about/

Comentário

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Comentário de Raciel Gonçalves Junior em 8 julho 2012 às 21:52

Encorajamento não é confiança

Pergunta: Em vez de se dirigir a multidões heterogêneas em muitos lugares e deslumbrá-las e confundi-las com seu brilhantismo e sutileza, por que você não dá início a uma comunidade ou colônia e cria uma referência para seu modo de pensar? Você tem medo que isso nunca possa vir a ser feito?

Krishnamurti: Senhor, brilhantismo e sutileza deveriam sempre estar cobertos, porque muita exposição de brilhantismo apenas cega.

Não é minha intenção cegar ou exibir inteligência, isso é muito estúpido; mas quando se vê as coisas muito claramente, não se pode evitar expô-las muito claramente.

Isto você pode achar brilhante e sutil. Para mim, o que estou dizendo não é brilhante: é o óbvio. Esse é um fato. O outro é, você quer que eu funde um “ashram” ou uma comunidade.

Ora, por quê? Por que você quer que eu funde uma comunidade?

Você diz que ela atuará como uma referência, isto é, alguma coisa que pode ser apontada como um experimento bem sucedido. É isso que uma referência implica, não é? – uma comunidade onde todas estas coisas estão acontecendo.

É isso que você quer. Eu não quero fundar um “ashram” ou uma comunidade, mas você quer. Ora, por que você quer tal comunidade?

Vou lhe dizer por quê.

Isto é muito interessante, não é? Você quer porque gostaria de juntar-se a outros e criar uma comunidade, mas você não quer começar uma comunidade com você mesmo; quer que alguém mais o faça, e quando estiver feito, você se junta.

Senhor, você tem medo de começar por si mesmo, por isso quer uma referência. Ou seja, quer alguma coisa que lhe dará autoridade de um tipo que pode ser realizada. Em outras palavras, você mesmo não tem confiança, e então você diz “Funde uma comunidade e me juntarei a ela.”

Senhor, onde você está, você pode encontrar uma comunidade, mas você só pode encontrar essa comunidade quando tiver confiança. O problema é que você não tem confiança.

Por que você não é confiante? O que eu quero dizer com confiança?

O homem que quer obter um resultado, que consegue o que quer, é cheio de confiança, o homem de negócios, o advogado, o policial, o general, são todos cheios de confiança.

Ora, aqui você não tem confiança. Por quê? Pela simples razão que você não experimentou. No momento em que você experimentar isto, terá confiança.

Ninguém mais pode lhe dar confiança; nenhum livro, nenhum professor pode lhe dar confiança. Encorajamento não é confiança; encorajamento é meramente superficial, infantilidade, imaturo.

A confiança começa quando você experimenta; e quando você experimenta com o nacionalismo, mesmo com a mínima coisa, então enquanto experimenta você terá confiança, porque sua mente estará viva, flexível; e então, onde você estiver haverá um “ashram”, você mesmo fundará a comunidade.

Isso está claro? Você é mais importante que qualquer comunidade.

- Poona India 7th Public Talk 10th October, 1948 Collected Works, Volume 9
. http://www.jkrishnamurti.org/pt

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